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Folha - Qual era o objetivo desse contato?
Janira Rocha - O Daciolo me procurou antes de viajar para a Bahia. Ele disse: "Deputada, recebi um convite do juiz da Auditoria Militar Barroso Filho para ir à Bahia tentar ajudar na intermediação do processo de negociação". Perguntou o que achava. Disse a ele que achava legal, que tinha que ir tentar ajudar no processo. De lá ele me ligou e disse: "O processo de negociação está difícil. Eles não conseguem chegar num acordo. O que foi mais divulgado foi uma proposta que dariam uma parcela da gratificação pedida pelos policiais em novembro e o restante até 2015. Mas não avançaram nenhum milímetro em relação a não criminalização e não prisão dos dirigentes [sindicais]. Achamos que essa proposta é ruim. O que a sra. acha?". Esse trecho eles tiraram da gravação [divulgada]. Disse a ele que, se o objetivo é garantir os dirigentes, o que está certo, não é a melhor coisa negociar nesse momento. A correlação de força não está favorável. Se houver greve no Rio e em outros Estados, a correlação de forças muda e fica mais fácil garantir a liberdade dos dirigentes. Então, disse a ele, que ele ajudava mais vindo para o Rio, organizando a base no Rio, do que na Bahia.
Quando a sra. fala, na gravação, que não é vantagem negociar lá, antes de deflargar a greve aqui, a sra. se referia em relação a não criminalização dos dirigentes?
Sim, porque o governo [baiano] em nenhum dos cenários de negociação anistiava os líderes. Se o objetivo é esse, tem que estabelecer uma nova correlação de forças. Em outros momentos eu conversei com eles também. Estou deputada, mas sou dirigente do movimento sindical. Eu venho do movimento sindical, essa é a minha base social. Então represento aqui dentro o interesse dessas categorias.
Mas essa era uma negociação em outro Estado. Não há contradição em interferir na negociação em outro Estado que não o Rio?
São negociações de trabalhadores. Existe uma articulação nacional desses trabalhadores, eu conheço e já lutei com essas pessoas antes. Milito há 32 anos no movimento social. Não vejo contradição nenhuma. O trabalhador da Bahia é o mesmo do Rio e de outros Estados.
Há uma articulação nacional de policiais e bombeiros?
Na verdade não existe essa articulação. Há pessoas que se falam. Mas não existe uma entidade nacional que represente todo mundo. Há pessoas que conversam.
A sra. acredita que, no plano nacional, eles ainda são desorganizados?
Se fosse organizado, com a força que a segurança pública tem, a PEC 300 já estava aprovada. Se num ensaio de mobilização que agora aconteceu, houve uma crise institucional, imagine se houvesse organização.
A sra. é a favor do direito de greve de militares?
Sou, porque o militar come, veste, pega ônibus. E o militar é tratado pelos governos como qualquer outro trabalhador quando define política salarial. Como disse o ex-presidente da República, se o trabalhador é essencial, o salário dele tem que fazer essa consideração. Se essa consideração não existe, eles precisam se mobilizar. Senão são transformados em escravos.
E a questão da hierarquia e disciplina, que os oficiais alegam?
Tem que existir disciplina e hierarquia. O que não pode existir é assédio moral em nome de hierarquia e disciplina. Um policial não poder reclamar que está ganhando mal, porque se fizer vai para a cadeia e a família dele continua passando fome. Sou a favor que os direitos que a Constituição dá a todos os trabalhadores sejam estendidos aos trabalhadores militares também. Desmilitarização, direito de greve, direito de livre expressão.













